Se você entrou numa loja da Gentle Monster em Seul, ou só parou pra ver alguém abrindo uma caixinha de Labubu nas redes, viu a mesma coisa: gente pagando pra sentir alguma coisa, não só pra levar um produto pra casa.
Essa reflexão veio de uma matéria publicada no Meio & Mensagem por Franklin Costa, cofundador da øclb, sobre como a Ásia virou referência mundial em varejo experiencial. Os números que ele traz ajudam a entender o tamanho do fenômeno: 76% dos brasileiros têm interesse na cultura sul-coreana, 29% compram produtos relacionados todo mês, marcas chinesas já são 21% do mercado brasileiro de eletrodomésticos, e o TikTok tem 91 milhões de usuários só no Brasil.
O que a Ásia decifrou que o resto do mundo ainda está aprendendo
China e Coreia do Sul apostaram em caminhos diferentes. A China escalou consumo: a Popmart, dona dos bonecos colecionáveis Labubu, já tem mais de 670 lojas e 2.800 roboshops espalhados pelo mundo. O parque temático da marca, o Pop Land, cresceu 70% em visitantes de um ano pro outro.
A Coreia do Sul, por outro lado, apostou em criar desejo. A Gentle Monster, marca de óculos, abriu a Haus Nowhere Seoul: um prédio de 14 andares com robôs mecanizados, esculturas gigantes e vitrines pensadas pra virar conteúdo. O resultado é que a loja virou ponto turístico, não porque vende óculos bonitos, mas porque cada andar é uma cena que alguém quer registrar.
Comprar virou pouco. As pessoas querem ter algo pra mostrar
O ponto central por trás dos dois casos não é a escala nem o orçamento, é a mesma decisão estratégica: transformar a compra num evento compartilhável. Uma vitrine, uma caixa, um corredor de loja virou roteiro de vídeo antes de virar venda.
Isso não é exclusividade de marca de luxo ou de gigante asiática. É uma mudança de comportamento que já chegou aqui: a pessoa decide comprar, em parte, pensando no que vai postar depois.
Você não precisa de 14 andares pra aplicar isso
A tentação, ao ver esses cases, é achar que só funciona em escala grande. Não é bem assim. O princípio por trás da Gentle Monster e da Popmart é replicável em qualquer tamanho de negócio:
- ✦Um momento de unboxing ou entrega pensado pra ser bonito o suficiente pra alguém gravar, mesmo que seja uma clínica mandando uma embalagem de exame ou um e-commerce local embalando um pedido.
- ✦Um canto físico da loja, do consultório ou até da página do site que existe especificamente para ser fotografado, não só pra funcionar.
- ✦Uma identidade visual consistente o bastante pra ser reconhecida em três segundos de vídeo, sem precisar de logo grande no canto da tela.
O risco de imitar sem entender
O erro mais comum é copiar a estética sem entender a estratégia por trás. Um robô decorativo ou uma vitrine "instagramável" copiada sem propósito vira só decoração cara, do mesmo jeito que design bonito sem estratégia vira decoração e não vende.
A pergunta que a Gentle Monster e a Popmart responderam antes de desenhar qualquer vitrine foi: o que queremos que a pessoa sinta, e o que ela vai querer mostrar pra alguém depois? Design que gera compartilhamento começa nessa pergunta, não na execução visual.
Se sua marca ainda pensa em experiência só como "loja bonita", vale repensar: o que, no seu negócio, já merece virar uma cena que alguém quer registrar? Fala comigo no WhatsApp e vamos pensar juntos nisso.
Designer gráfico. Escrevo sobre marca, forma e ofício, o que sustenta uma identidade em qualquer superfície.
