O Embranquecimento de Iemanjá e o Papel do Design na Construção do Imaginário Brasileiro
Luciano Vieira
18/02/2026
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A imagem nunca é neutra.
Toda representação carrega intenção, contexto e poder. No Brasil, poucas figuras revelam isso com tanta clareza quanto Iemanjá.
Originalmente uma divindade africana de origem iorubá (Yemọja), associada às águas doces e posteriormente ao mar no Brasil, Iemanjá tem raízes negras, africanas e ancestrais. No entanto, ao observarmos a iconografia popular brasileira, vemos algo diferente: uma mulher branca, de traços europeus, cabelos lisos e longos, vestida de azul.
O que aconteceu nesse processo?
E mais importante: qual foi o papel do design gráfico nessa transformação?
A representação original de Iemanjá
Na tradição iorubá, Yemọja é uma divindade ligada à fertilidade, maternidade e força ancestral. Sua representação está conectada à estética africana: pele negra, corpo simbólico, força matriarcal.
Quando essa cosmologia chega ao Brasil através da diáspora africana, ela passa por um processo inevitável de adaptação — mas também de apagamento.
Ao longo do século XIX e principalmente no século XX, a imagem de Iemanjá sofre um processo de embranquecimento.
Entre os fatores históricos:
- Forte influência do catolicismo e sincretismo com Nossa Senhora
- Padrões estéticos europeus dominantes
- Idealização da branquitude como símbolo de pureza
- Indústria gráfica baseada em referências acadêmicas europeias
O que antes era uma divindade negra africana passa a ser representada como uma espécie de “sereia mariana” de pele clara.
Isso não é acidental.
É reflexo direto de um país construído sob lógica colonial.
Onde o design gráfico entra nessa história?
Aqui entramos no ponto mais delicado — e mais importante.
A consolidação da imagem branca de Iemanjá acontece justamente no momento de expansão:
- Da impressão em larga escala
- Dos cartazes religiosos
- Das litografias
- Dos santinhos populares
- Da publicidade cultural
O design gráfico, ainda que não intencionalmente, foi instrumento de padronização visual.
A imagem que se reproduz em massa vira referência cultural.
E aquilo que é repetido torna-se verdade.
Design não apenas comunica.
Design constrói imaginário.
Quando gráficas, ilustradores e editoras reproduzem uma Iemanjá branca, essa imagem se consolida como “oficial”, apagando visualmente sua ancestralidade africana.
Isso é o que estudiosos chamam de colonialidade da imagem.
Racismo estrutural e estética
O embranquecimento de Iemanjá não pode ser analisado isoladamente.
Ele dialoga com:
- Padrões publicitários do século XX
- Representações de beleza eurocêntricas
- Construção de arquétipos visuais aspiracionais
- Exclusão sistemática de corpos negros na comunicação
O design sempre operou dentro de sistemas de poder.
Se a sociedade valorizava o branco como ideal, o design reproduzia esse ideal.
A pergunta incômoda é:
O design apenas refletiu o racismo estrutural ou ajudou a consolidá-lo?
O movimento de resgate visual
Nos últimos anos, vemos um movimento importante de reconstrução estética.
Artistas afro-brasileiros e designers têm revisitado a iconografia de Iemanjá, resgatando:
- Traços africanos
- Texturas naturais
- Cabelos crespos
- Elementos simbólicos ancestrais
O design, que antes ajudou a embranquecer, agora pode ajudar a restaurar.
Isso mostra algo essencial:
O design não é neutro, mas também não é estático.
Ele pode perpetuar apagamentos ou promover reconstruções.
O que isso ensina para quem trabalha com design hoje?
Se você é designer, estrategista de marca ou profissional de comunicação, essa reflexão é inevitável.
Cada escolha estética carrega impacto cultural.
Cada imagem reforça ou questiona estruturas.
Trabalhar com identidade visual é também trabalhar com responsabilidade histórica.
A pergunta não é apenas:
“Isso é bonito?”
Mas também:
“O que essa imagem está validando?”
Conclusão
O embranquecimento de Iemanjá é um exemplo poderoso de como o design gráfico participou da construção do imaginário brasileiro.
Ele revela que estética também é política.
E que toda representação é uma escolha.
Se o design ajudou a consolidar um padrão excludente, ele também pode ser ferramenta de reconstrução simbólica.
A imagem nunca é neutra.
E talvez esteja na hora de começarmos a desenhar com mais consciência.